8. À SUA IMAGEM

Como Síndromes e um Século em 2006 e En La Ciudad de Sylvia (ou A Questão Humana) em 2007, Aquele Querido Mês de Agosto e, um pouco menos, A Fronteira da Alvorada (La Frontière de l’Aube, 2008) foram os filmes que deram conta de acomodar todos os exercícios especulativos da crítica neste ano. (E a comparação não ajuda a reputação de 2008, de fato.) O primeiro começa como um documentário sobre uma região de Portugal e, aos poucos (e sem ruptura), se transforma em uma ficção construída a partir da observação daquele universo e de uma espécie de rearranjo de seus elementos. O longa formula, portanto, uma teoria de cinema – que embaralha os significados de ‘ficção’ e ‘documentário’ – para a qual também pretende servir de demonstração. Seria o melhor filme do mundo se não perdesse progressivamente a força à medida que avança por sua porção ficcional – e não colocasse, assim, a sua teoria em suspenso. Já o segundo embaralha outros termos: a questão de Philippe Garrel é o tempo (que tudo muda e que nada muda). E aí não tem problema filmar 2008 como se fosse 1969 – o que interessa é que tudo veio depois de 1968.
Valsa com Bashir (Waltz With Bashir, 2008) é provavelmente o filme de 2008 que mais resiste a qualquer tentativa de categorização. Como escrevi no Guia na época do lançamento, ele é, ao mesmo tempo, uma animação engajada, um documentário de pegada pop, um drama psicanalítico, um filme de guerra. É um longa que pode ser criticado justamente por essa alternância de tons e pela maneira por vezes pouco sutil de operá-la. Prefiro, porém, me apegar à originalidade (e à honestidade) desta estrutura que só se permite reconstruir o passado em forma de animação – e à força da história que ela narra. E chega disso.
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